Terça-feira, 13 de Agosto de 2013

As almas mais sensíveis se confrangem diante da luta do nordestino numa seca prolongada. Como eles aguentam essa vida?

(foto de Cauê Rodrigues mostrando a pasmaceira do sertão)

Mas incrível é como uma miséria dessa ganha uma visão poética na descrição de um bom romancista. É o caso de Mário Palmério, em Vila dos Confins (p.56): “A primeira impressão que o arruado do Carrapato desperta é abandono e pobreza. Difícil topar, naquele fim de mundo, coisa mais triste e sem vida. O sol cai de ponta, brutal. Entorpece e queima tudo. A areia é polvilho de espelho socado no pilão. O ar se pode ver mover-se – lesma amarelada, quente, pegajosa dançando sobre ruas e telhados. O mormaço entra pelas frinchas das janelas e pelos vãos do telhado. Até dos tijolos que rejuntam o chão do quarto sobem nuvens de quentura. Um forno”.

O Brasil é assim. Sendo tão grande abriga grandes metrópoles com shoppings fresquinhos a poder do ar condicionado, e os tabuleiros estagnados e quentes do interior. Em ambos vivem almas sequiosas de atenção e alegrias.

- Mas, porque ainda teimam em viver em locais perdidos, assim?

Este outro trecho talvez explique: “João Fanhoso cantou outra vez o mesmo canto de taquaraçu rachado, o som alto ia longe. Um canto fino respondeu, petulante, do galho do tamarindo. Era o Garnisé. Longe, outro galo respondeu. Depois, outro e mais outro. A  serenata dos galos acordou a fazenda. Debruçado na janela do quarto ele olhou o céu. Pelos lados da lagoa, ainda demoram a beleza do azul escuro debruado de nuvens claras. Pelas bandas do rio Preto, aparecem os primeiros respingos cor de ouro e tingidos de vermelho sangue. Na direção do chapadão amontoam chumações de lã cinzenta das nuvens de chuva. Ele fala baixinho: Chuva, graças a Deus. Um vento fresco chega cheirando a frutas maduras, vinha dos espigões da serra, lá onde a chuva já malhara com vontade.

(este é um caminho do sertão, mas dificilmente você terá passado por aqui, como a gente faz de bicicleta) 

Ele fala quase rezando: Ô sertão bonito, meu Deus!”  



publicado por joseadal às 22:38
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