Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

Pierre Edouard Léopold Verger (1902-1996) foi um etnólogo e antropólogo francês, além de um excelente fotógrafo internacional que, na África, foi atraído a pesquisa dos cultos afros aos orixás.

Escreveu um livro com este título, que estou lendo aos poucos. Na maior parte do tempo ele faz descrições de cerimônias que não interessa a muita gente. Mas este trecho vale a pena lhe mostrar:

“No novo mundo, como na África, nem todas as pessoas que procuram a proteção dos orixás entram, obrigatoriamente, em transe de possessão, da mesma maneira que nem todos os católicos ou protestantes tornam-se padres ou pastores. O transe de possessão é uma forma de comunhão entre o crente e o seu deus, não sendo dada a todo mundo a faculdade de experimenta-la. Os que são chamados a se tornar Filhos ou Filhas de santo devem passar por um período denominado impropriamente de “iniciação”. Dizemos impropriamente, pois não lhes são revelados segredos. Fazem-lhes, sim, reencontrar certo comportamento, aquele atribuído a seu deus”.

Tem a ver com a mesma preferência que faz um homem ser devoto de São Jorge e outro de São Pedro. São parecenças da personalidade do crente com um outro que alcançou uma posição venerável em outra vida. Mas, aqui, Verger mostra uma coisa sobre a mente de todos nós:  

“A iniciação não se faz no plano do conhecimento intelectual, consciente e aprendido, mas em nível mais escondido, que vem da hereditariedade adormecida, do inconsciente, do informulado. Todos os seres humanos possuem, em potencial, numerosas tendências e faculdades que ficam em estado de vigília. As experiências vividas por um indivíduo, o exemplo dos mais velhos, os princípios inculcados pela educação, a censura do meio social, fazem com que apenas algumas dessas tendências e faculdades possam expandir-se, resultando daí a criação de uma personalidade aparente, diferente daquela que ele poderia ter tido, se o acaso o tivesse colocado num meio onde os valores morais e os princípios admitidos tivessem sido diferentes”.

Pedalando com o amigo Márcio Lemos, no domingo passado, ele comentava o filme Alta Frequência, em que o personagem de Dennis Quaid, avisado por um informante do futuro, faz uma escolha diferente da que fez, ou teria feito. Comentei com o amigo que acho ser assim a Onisciência do nosso Criador. Ele não só sabe tudo o que farei, mas tudo o que poderei fazer e assim sabe o nosso futuro, mas respeitando nosso livre arbítrio de escolher. Verger fala desse outro, eu sou, que aguarda dentro de nós.

“A iniciação consiste em suscitar, ou melhor, em ressuscitar no noviço, em certas circunstâncias, aspectos dessa personalidade escondida; aqueles correspondentes à personalidade do ancestral divinizado, presente nele em estado latente (mesmo sendo só em razão dos genes herdados), inibidos

e alienados pelas circunstâncias da existência levada por ele até essa data. Ou, talvez se trate de um arquétipo de comportamento, reprimido até então, que possa se exprimir num transe de libertação”.



publicado por joseadal às 13:09
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