Quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Voltemos ao filósofo Martin Heidegger.

Ao trecho de sua obra em que ele fala da Serenidade: “Serenidade é atitude de espera da Região do Ser, é despida da representação e entregue ao Aberto; a serenidade avança para o Aberto, que também se move para o homem, prenunciando o carácter de caminho do pensamento futuro. A espera que a serenidade nos faculta é também entrega permanente à Região das regiões (Ser), não se furtando ao que há que pensar e que espera ser pensado, pois o Aberto não se abre sem a cooperação do pensamento sereno”.

- Zé, quer sabe, não entendi nada.

Com certeza se consegue ‘pegar’ alguma coisa do que foi dito pelo pensador. Pois o filósofo, mesmo sendo alguém que estuda emoções, qualidades e sensações humanas como se usasse um microscópio, tenta nos revelar o que ‘vê’ com palavras que possamos entender. Olhando o conjunto do que ele disse, sendo muita informação, fica-se perdido. Mas separe os componentes e ficará compreensível.

Serenidade, consegue definir esse estado da alma? Heidegger diz: “é uma atitude de espera”. Mas é mais do que isso, é “despida da representação”. A Representação da qual ele fala, é uma veste que se usa constantemente, é o que a gente já sabe. Mas se você ficar no que ‘sabe’ não aprenderá mais nada. Então, a Serenidade é uma espera em que precisamos nos despir do que já sabemos e ficar Abertos. Neste estado não se fica parado. A gente se move para o que é novo, o Aberto, que felizmente vem ao nosso encontro. Forma-se o “caminho do pensamento futuro”. Para se chegar a este ‘novo saber’, ao pensamento que será nosso em algum momento futuro, é imprescindível pensar: “não se furtando ao que há que pensar e que espera ser pensado”.

Nesta vida de hoje, onde o que mais se ouve é: não tenho tempo, há pouca serenidade, há menos mudanças de vida e pouco “pensamento futuro”. Salve, Heidegger que nos chama atenção para isso! 



publicado por joseadal às 02:22
Domingo, 22 de Junho de 2014

“Uma incompreensão fundamental da estrutura mental de Jesus”.

Esta frase foi recortada da p. 111 do livro A Religião de Jesus, o Judeu. O professor de Teologia Geza Vermes discute a maneira de ensinar de Jesus usando parábolas. Ele cita um comentário de outro estudioso, Eduard Schweizer, que descobriu na Parábola do Filho Pródigo um propósito que nunca me ocorreu: “Com uma segurança que deve ter impressionado seus ouvintes, Jesus descreve o comportamento absolutamente inesperado por parte do pai de um filho delinquente. Quem, a não ser Jesus, teria autoridade para proclamar com que honra Deus recebe um pecador que é restituído a Sua companhia? Deveria ser evidente para todos – especialmente aqueles que o pregaram na cruz porque encontraram 'blasfêmias' em sua pregação – que deviam substituir a crença num Deus de ira pela noção de Sua paternidade e bondade”.

  

Não era para ser, o final da história já estava escrito há muito tempo, mas era para os sacerdotes e escribas, se achavam que Jesus era um pecador, em vez de tomar as dores de um Deus repressor e o matado, deviam sim, abraça-lo tentando trazê-lo à doutrina que acreditavam ser a certa. Mas não entenderam a parábola, não perceberam a moral da historinha que Jesus contou e o mataram cheios de ódio. Pensando que o Criador de tudo queria que fosse assim. Não entenderam a ‘atitude mental’ de Jesus que é a mesma de quem fez todo esse Universo de matéria. Foi o que aprendi.      



publicado por joseadal às 02:21
Sábado, 21 de Junho de 2014

Hoje, o novo amigo, Antonio Santana, me mostrou uma foto do rio Paraíba do Sul num trecho que passa atrás de sua firma e o pensamento que teve.

- Imaginei, de repente: vejo este rio há tanto tempo e não sei nada dele, se não o que me aparece na superfície. Não sei o que há aí embaixo: os peixes que nadam ali, as algas, objetos que jogamos na corrente, as pedras... Há tanto para saber. Cada um desses assuntos levaria à longos estudos.

Quando se lê, compreende-se melhor as coisas. No livro Operação Cavalo de Tróia, vol I, Jerusalém, estou numa página onde o viajante do tempo encontra Pôncio Pilatos e falam do césar Tibério: “Aqueles últimos anos de Tibério, foram de autêntico terror. Suetónio escreveu que todos se espiavam e tudo podia ser motivo de secreta delação ao César. O caráter desconfiado de Tibério alimentava até vagas denúncias. E quando algum homem corajoso - como Calpúrnio Pison - levantava a sua voz protestando por esta situação, o César encarregava-se de aniquilá-lo. Tibério via traidores e traições até nos seus mais íntimos amigos e colaboradores. O terror tiberiano chegou a tais extremos que, se espiava até uma palavra saída num momento de embriaguez. Até o gracejo mais inocente podia constituir um pretexto para denunciar”.

Agora, imagine a situação de Pilatos como procurador de Tibério em Jerusalém (João 19:6-12):

“Os principais sacerdotes clamaram: Crucifica-o, crucifica-o.

Ecce Homo, obra do pintor italianoAntonio Ciseri (1821-1891)

Disse-lhes Pilatos: Tomai-o vós, e crucificai-o; porque eu nenhum crime acho nele.

Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque se diz Filho de Deus.

E Pilatos, quando ouviu esta palavra, mais atemorizado ficou.

E entrou outra vez na audiência, e disse a Jesus: De onde és tu? Mas Jesus não lhe deu resposta.

Disse-lhe, pois, Pilatos: Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?

Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem.

Pilatos procurava soltá-lo; mas os judeus clamavam, dizendo: Se soltas este, não és amigo de César; qualquer que se faz rei é contra César”.

Nesse momento, Pilatos deve ter pensado no que Tibério fez com outros funcionários graduados. E lavou as mãos.



publicado por joseadal às 00:59
Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Não parece tanto tempo assim, ou parece? Há duzentos anos, em Minas Gerais, às margens do rio das Mortes o ouro trouxe riquezas e muito sofrimento. Na tese de pósgraduação de Daniela dos Santos Souza, O culto de Nossa Senhora dos Remédios (p.153), diz: “Saint-Hilaire, em suas viagens pelo Distrito Diamantino, nas primeiras décadas do século XIX, relatou a saúde precária dos escravos, constantemente ameaçada tanto pelo tipo de trabalho que exerciam, quanto pela fraca qualidade dos alimentos que recebiam: ‘obrigados a estar continuamente dentro da água durante o tempo da lavagem do minério e consumindo alimentos pouco nutritivos, quase sempre frios e mal cozidos, tornam-se, pela debilidade do tubo intestinal, morosos e apáticos’. As senzalas, por exemplo, estavam entre os ambientes propícios para a proliferação de  doenças contagiosas. Na maioria das vezes, o ambiente era pouco ventilado, úmido, sem higiene e pequeno para muitas pessoas. No sistema respiratório, as enfermidades mais comuns eram a pneumonia (maior índice), os resfriados e a bronquite. O organismo debilitado e malnutrido do escravo transformava uma simples gripe, ou resfriado ou até mesmo uma bronquite, numa doença grave e fatal como a pneumonia e a tuberculose.”

Só quando D. João VI veio para o Brasil é que deu ordem para fazer um hospital, uma Santa Casa, ali. Então, desde 1720 os habitantes da região criaram Irmandades, que tanto prestavam veneração aos santos que pudessem valê-los na doença, como promoviam ajuda mútua. Todos os participantes pagavam uma anuidade e organizavam festas para angariar dinheiro. A devoção maior era a Maria, em sua condição de N.Sra. dos Remédios. (p.163): “A vida cotidiana daquela população, considerando a década final do XVIII e o início do XIX, marcada pela preocupação com a saúde e/ou com a ausência dela, foi contexto propício para a difusão de uma devoção como a de Nossa Senhora dos Remédios que, se já era popular entre os negros, ganhou notoriedade também entre dos brancos”.

Entre os devotos havia os que adoeciam e eram curados e os que pioravam e morriam. A fé amparava a todos. 



publicado por joseadal às 01:48
Segunda-feira, 09 de Junho de 2014

Não se pode viver só. “Sobre o conceito de identidade” – diz o livro Devoção e Identidade, da professora de História, Daniela dos Santos Souza (p.18) - “as próprias pessoas escolhem alguns sinais que as identificam no ambiente, que, por sua vez, serão implicados na manutenção da sua fronteira étnica,na medida em que os atores usam identidades étnicas (língua, costumes, religião, região, etc.) para categorizar a si mesmos e a outros, com objetivos de interação, eles formam grupos étnicos no sentido organizacional”.

Quando pedalei até Piedade do Rio Grande, assisti as danças da Congada e Moçambique e me relacionei com os negros que participam daquela irmandade, fiquei louco para entender por que eles se juntavam numa agremiação assim. E fui buscar respostas nos livros.

No século XVII o Brasil ainda era uma grande selva em que as Bandeiras dos paulistas procuravam desbravar. Perto de 1700, um deles construiu uma casa/armazém no local que hoje é São João Del Rei. Três anos depois descobriram ouro ali em volta e, com mais três anos formou-se um arraial. O ouro ajudou a construir a igreja dedicada a N. Sra. Do Pilar. Portugueses, mestiços deles com índias e negros trazidos da África frequentavam a mesma igreja e nela procuravam seu grupo. “Nossa Senhora do Rosário foi escolhida como padroeira dos negros que se estabeleceram no início do antigo Arraial de Nossa Senhora do Pilar, depois de construída a primeira capela, ainda na primeira década do setecentos. Por volta de 1720, novas devoções foram estruturadas na igreja – São Benedito, Santo Antônio de Catalagerona e Nossa Senhora dos Remédios – dois santos negros e uma branca”.

Os grupos organizados chamavam-se Irmandades. A dos negros foi formada primeiro, em 1708. Os brancos portugueses organizaram a sua – dedicada ao Santíssimo Sacramento – em 1711. As irmandade produzia a festa do santo, cuidava de seus filiados e angariavam fundos para a construção de uma igreja para seu santo de devoção.

Uma irmandade era ao mesmo tempo um clube, uma congregação para adoração e uma instituição de ajuda mútua.

Nós humanos sempre buscamos a união e com ela a proteção. 



publicado por joseadal às 01:17
Sábado, 07 de Junho de 2014

Depressão é uma doença antiga, já aparece no livro A Cidade e as Serras, obra de 1901. O personagem Jacintho, homem rico, foi prostrado por ela.

“Não se ocupara mais das suas Sociedades e Companhias, nem das Religiões Esotéricas, nem do Bazar de Caridade Espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o empregado as varria tristemente como o lixo duma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as suas convivências. As paginas da Agenda cor de rosa murcha andavam desafogadas e brancas”.

Ficou curado quando deixou a cidade e foi para roça, para perto da Natureza. (como eu e o amigo Pedro Raimundo chegando em Madre de Deus)

“Sentamo-nos nos poiaes da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vênus diamantina, languida anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacintho nunca considerara demoradamente o céu do anoitecer. E este enegrecimento dos montes que se embuçam em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar ao vento; o cobertor de nevoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola pelas quebradas e o segredado cochichar das aguas no riacho eram para ele como iniciações. Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda a que anda cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim tirava de cima dos ombros um grande peso”. (entardecer perto de Piedade do Rio Grande, quase hora da missa que íamos assistir)

Sinto o mesmo, quando saio de bicicleta do asfalto da cidade e corro por sobre o saibro de uma estradinha vendo pastos e matas, rios e cachoeira. É a paz da obra de Deus.



publicado por joseadal às 02:19
Terça-feira, 03 de Junho de 2014

Vimos história acontecer ao vivo, em nosso passeio ciclístico à Piedade do Rio Grande, MG.

Mas foi mais que isso, todos os nossos sentidos foram mobilizados para vivenciar antigas experiências humanas. Ouvimos o som da madeira contra madeira dos bastões e do metal dos guizos.

Sentimos o cheiro da madeira queimada na fogueira e do suor de homens em frenética atividade. Misturamo-nos a história, na festa da Congada e Moçambique. Lia, a pouco, a tese da professora Lívia Nascimento Monteiro, Doutora em História pela UFF: “A congada também é chamada de terno ou côrte. Os primeiros registros de congados são do período colonial; para o historiador José Ramos Tinhorão há um registro de uma coroação de rei negro feita em 1711 no interior de uma irmandade de Nossa Senhora do Rosário em Pernambuco, mas esta festa está ligada a coroação do rei do Congo, promovida em 1551, pelo rei português D. João III”. Então, o que eu e meu amigo Pedro Raimundo acompanhamos foi a recriação de uma antiga festa de coroação de reis africanos. Também assistimos a uma coroação, mas isso, conto depois.

 

Com o coração martelando mais forte do que quando subi a serra em minha bike e os olhos marejados de lágrimas vi aquele verso de Caetano e Gil reproduzido às avessas: “pretos, pobres e mulatos; e quase brancos quase pretos”. Mas não estavam, novamente, “levando porrada”. Aquelas duas filas de pretos velhos, meninos mulatos e fortes homens negros lembrava um desfile de reis e príncipes. Cabeças erguidas, cheios de orgulho próprio e nobreza a fila se moveu num passo de bailado.

Adiante fizeram coreografias belas, com suas roupas imaculadamente brancas, bastões coloridos nas mãos e guizos presos as pernas. A emoção, que como homem branco misturado por muitas cores, senti foi a beleza da dignidade de ser homem. Essa criatura, essa raça, eleita por Deus como os que mais se parece com Ele.

A professora diz que o brasileiro não tem uma boa noção do que foi a escravidão: “A análise de relatos de africanos vindos da Baía do Benim para a cidade do Rio de Janeiro no século XVIII, revela que havia uma ampla e bem organizada rede de relações sustentada pelos laços étnicos, religiosos e parentais que se organizavam com base na nação e na terra de onde procediam. Desse modo, no espaço colonial eles abriam mão de certas tradições e mantinham outras, buscando assim uma saída para continuarem existindo enquanto grupo étnico e político”. Longe de seu lugar de nascimento e afastados dos parentes o homem negro não se entregava e a atitude política era intensamente buscada por eles. Nas fazendas formavam um pequeno extrato de sociedade com chefe, líder espiritual, contador de histórias, artistas e negociantes, e o curador. Os negros escravos formavam uma sociedade complexa em meio a sociedade branca escravagista.

Porém, ouso discordar da professora ao dizer que os bastões coloridos não representam espadas humilhadas e mistificadas em paus. Estive tão perto que esperava a todo momento receber uma porretada no rosto. Na representação eles batem e baixo e depois em cima.

Em outro livro onde me divirto muito, A Cidade e as Serras, de Eça de Queiróz, fala dos primitivos portugueses e diz: “Nas suas altas terras, de volta de bater os mouros, nem mesmo despiam as fuscas armaduras e já iam lavrar suas chãs”. A Bíblia também conta dos judeus, que na volta a Jerusalém, tinham a enxada nas mãos e a espada na cintura. O símbolo do soldado-lavrador, do guerreiro-agricultor é o arquétipo mais lindo do estado de vigilância do homem sofredor. Assim, no terreiro da cidade de Piedade, eu vi, os homens cheios de seriedade e fleuma se dobrarem com seus bastões, como cavando a terra e, então, erguendo-os como espadas prontas para o combate. O que assistimos em Piedade foi a encenação da música Viola Enluarada: “Quem tem de noite a companheira/ Sabe que a paz é passageira,/ Prá defende-la se levanta/ E grita: Eu vou!” Escute aí: https://www.youtube.com/watch?v=FdaZHAXJFkQ    



publicado por joseadal às 23:20
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