Domingo, 14 de Agosto de 2011

Hoje cedo me lembrei de uma coisa, como fiz as pazes entre minha mãe e minha avó paterna.

Quando nasci morávamos na casa de vovó Adalgisa, portuguesa que em realidade nascera em Niteroi, como eu muito tempo depois. Elas viviam em guerra enquanto meu pai, filho de uma e marido da outra, vivia outra guerra, contra os alemães na Itália. A desavença delas era por minha causa. Minha avó gritava para quem quisesse ouvir que a "vagabunda" aplicara o "golpe da barriga" para prender Gumercindo, o belo português. Esquecia que do mesmo jeito tinha seduzido o falecido José que me emprestou o nome.

Por que será que entre as mulheres nós, os homens, somos levados em tão pouca conta assim? Meu pai contava que precisou "dar muito em cima de Idalina pra conquistá-la", já elas duas mais as irmães, vizinhas e comadres diziam que "o boçal tinha sido enredado por aquela 'umazinha'". Ê gente!

O tempo passou, a 2° Grande Guerra acabou, meu pai voltou, alugou uma casa bem longe para acabar de vez com essa outra guerra e as duas não se viram mais. Por cinco longos anos. Sim, porque naqueles bons tempos os anos passavam bem morosamente.

De longe em longe meu pai levava a mim e minhas irmães para ver a mãe e ela se afeiçou pelo outro José que mesmo de calças curtas lhe lembrava o amor de sua vida. Assim, ficou combinado pelo filho e sua mãe que o garoto passaria as férias escolares no Fonseca, onde ela morava.

- Será que a 'outra' vai deixar o menino vir ficar comigo?

- Mãe, ponha em sua cabeça, ela é uma boa pessoa.

O tempo passou mais um pouco e numa tarde, não muito depois do almoço, eu trepado no meu lugar de vigia em cima do muro de nossa casa, tive uma visão que mudou tudo e, como bom sentinela corri pra avisar minha mãe que depois de se distrair lavando a louça enfrentava cantando com sua bela voz uma montoeira de roupa da família apenas com um ferro à carvão e um fogareiro.

- Vovó vem vindo aí!

- Que é isso, menino!

E vendo meus olhos desmesuradamente abertos percebeu que não era outra invencionice minha.

- Traga ela para dentro e depois suma daqui. Pode ir brincar na rua, se quiser. 

Não vi como foi o encontro das duas, corri pra rua com meu saco de bolas de gude. Olharam-se mudas sem dizer nada por um tempo? Foram logo pedindo desculpas uma a outra? Abraçaram-se? Ou foram logo fofocando sobre a família das duas como se nada tivesse acontecido? Não tenho como saber. Naqueles tempos criança não se intrometia em assuntos dos mais velhos. E sabe, isto era bom, as informações que tínhamos na cabeça não dava para lidar com as complexas emoções de quem já havia vivido muito. Só sei que a paz voltou a reinar entre as duas casas.

O tempo passou acelerado, sessenta anos se esvairam, assim. Enterrei as duas mulheres faz tempo. E hoje, só nesta manhã, me dei conta do meu papel pacificador. Me senti como São Francisco de Assis: Senhor, faça-me intrumento em tuas mãos e onde houver guerra que eu leve a paz.

Cara, como é bom ser um pacificador. Paz para vocês onde estiverem, vovó Adalgisa e mamãe Idalina.  


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publicado por joseadal às 23:24
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