Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Lili costuma dizer que vivo tentando transforma-la, molda-la
ao meu jeito. Para meu próprio bem devo dar ouvidos a ela. Mas procurando o
modo que uso para fazer dela outra pessoa, não o encontro. Quer dizer, sou neurótico ou
burro, a segunda opção me parece mais simpática. No livro Sexus li sobre um
médico sendo analisado. O analista faz a seguinte anotação sobre seu paciente:

“Desgraçado, é precisamente o modo como se vê. Desgraçado desde o primeiro minuto de sua
vida. Uma completa falta de confiança em seu destino. Inevitavelmente transmite
este sentimento aos que convive. De uma forma ou de outra consegue manobrar de
tal maneira seu amigo ou a companheira para o decepcionarem ou traírem. Ele
escolhe os de quem se aproxima com a mesma antevisão de Cristo ao escolher Judas”.

Fiquei pensando nesta frase. Jesus precisava de alguém inteligente
e bastante independente que ficasse impressionado com seu modo de ensinar a tal
ponto que abandonasse sua vida particular e o seguisse. A inteligência e senso
de justiça de Judas faziam-no detestar a dominação romana e a mensagem de Jesus
de que era o Messias prometido, o libertador do povo judeu oprimido o comoveu e
convenceu. Mas quando o movimento cresceu e multidões seguiam o mestre este
começou a falar sem meias palavras que seria preso, morto e seus discípulos
seriam espalhados. Ao invés de se esconder e começar uma guerrilha contra os
invasores romanos Jesus se expunha e deliberadamente provocava as autoridades.
Judas entendeu que seu mestre não queria iniciar uma revolta gloriosa, mas que
queria morrer. Dar-se em sacrifício é politicamente uma ‘jogada’ extrema posta
em prática por muitos revolucionários, a tal ponto que as autoridades evitam
matar um líder criando um herói que morto fortaleceria o movimento de reforma
mais do que se estivesse vivo.

Mas, aparentemente, Judas não percebeu este
desfecho: o sacrifício de um para o bem de muitos. Assim, como o médico analisado,
Jesus precisou ‘manobrar seu amigo de tal maneira que ele se sentisse
decepcionado e o traísse’. Pensando desse modo quem foi mais responsável pelo
desfecho que mudou mundo e transformou o amigo em traidor?

Se bem que ao longo do tempo, a linha da História desfaz
culpas e inocenta culpados mostrando que cada ação humana tem um propósito no
plano geral de evolução.

 

 


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publicado por joseadal às 07:35
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