Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Li alguns trechos do livro Uma Viagem à Oceania e me ocorreu
uma ideia bem diversa. O autor Le Clézio, falando dos povos do cordão de ilhas
no Pacífico diz: “Os melanésios aniquilados, desprezados e no fundo do poço da
servidão, em meio às espoliações e negações do seu passado, privados de toda
identidade, ainda assim mantiveram sua língua e uma alma que lhe são próprios”.

É preciso muita resistência para aguentar a opressão e
continuar com uma personalidade forte.

“Esse embate entre a cultura europeia e polinésia foi sempre
um processo de destruição mais ou menos violento, em que uma civilização reinante
e tecnológica submeteu uma cultura mais ancestral, porém o resultado dessa
tensão foi a emergência de modulações afirmativas”.

Minha cabeça viajou para uma experiência nossa. Por anos,
durante todo o século 20, os sambistas preocuparam-se com a invasão das músicas
norte-americanas e europeias, dizendo como na música de Alcione: ”Não deixe o
samba morrer não deixe o samba acabar, morro foi feito de samba, de samba pra
gente sambar”. A invasão do foxtrote, do rock e do soul não acabou com o
samba, mas o suavizou fazendo o ritmo das músicas de Donga ganhar a
malevolência do som de Noel, tornar-se samba-canção com Erivelto, receber o
jeito cult de Chico, Cartola, Caetano e Gil e se virar bossa nova com
Vinícius, Marcos Vale, João e Tom. Como cantava Jackson: “Aí, eu vou misturar Miame
com Copacabana, chiclete eu misturo com banana e o meu samba vai ficar assim”.

E agora nós.

- Agora nós?

Mas não é? Não estou só falando de música, falo de tudo.
Sim, tudo que vem de fora da gente e nos assalta, como a corrupção, a violência
e a indecência. E como ficamos? Devíamos ser como a gente do Taiti, que Le
Clézio heroiciza: “As ameaças mortais dos navios carregados de mercenários e
missionários, de conquistadores e espoliadores sem escrúpulos, todo o rumor do
mundo, foi transformados por eles em sonhos e os novos deuses foram levados a
dançar nas praias para agradar os povos da ilhas. Os cantos novos tornou as
velhas cantigas em música mais variada”.

Não deixe sua alma morrer.



publicado por joseadal às 00:30
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