Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

"Estive esta manhã com meu médico Hermógenes. É difícil permanecer imperador na presença do médico, não consigo nem parecer um varão dono de si mesmo. O olho do clínico não via em mim senão um triste amálgama de linfa e sangue. Esta manhã, pela primeira vez, ocorreu-me a idéia de que meu corpo, este fiel companheiro que me é mais conhecido do que minha própria alma, não é senão um estranho sorrateiro e monstruoso que acabará por devorar seu próprio dono. Ainda não atingi a idade em que a vida para cada homem é uma derrota consumada. Dizer que meus dias estão contados nada significa. Assim foi sempre. Mas minha margem de hesitação já não abrange anos".

São palavras tristes de Élio Trajano Adriano (76-138), imperador romano, em uma carta à um amigo e transcrita por Marguerite Yourcenar no livro Memórias de Adriano. Elas revelam como se sentem todos os velhos quando o termo terceira idade não nos engana mais. Não me incluo nestes, apesar de estar naquela fronteira amigável em que meu espírito desejoso de conhecer e fazer tanta coisa neste planeta ainda encontra no corpo ânimo e força para empreender algumas façanhas.

Também como Adriano tenho obrigações que me prendem: a mim, a meu corpo e meu espírito de sair livre procurando. Desconfio que algo de mim está lá em Matchu Picho no alto dos Andes e tenho saudade de alguma coisa na estrada de Santiago de Compostela. Dentro em pouco, talvez nestes próximos dez anos ou menos, terei contra meu espírito e eu mesmo não só a prisão moral da vida cotidiana como a falta de força do meu corpo.

Adriano descreve esta sensação nestes versos:

 

Pequena alma terna e flutuante

Hóspede e companheira do meu corpo

Vais descer aos lugares pálidos

Onde deverás renunciar aos desejos do agora



publicado por joseadal às 00:09
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