Sexta-feira, 07 de Setembro de 2012

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula da terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, assim, igualmente, a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” - do livro de poesias Uma Anatomia do Mundo (1611)

Hoje não é como antigamente. Nas pequenas cidades, como a São Gonçalo de meu tempo de menino, quando os sinos da igreja dobravam ouvia os mais velhos perguntando: quem será que morreu? Podia ser um conhecido com quem já haviam feito negócio, ou alguém que encontrava na 'venda' fazendo a compra do mês. John Donne pensava mais adiante. O poeta inglês do tempo das navegações (1572-1631), também pastor anglicano, percebeu algo que a humanidade ao invés de apreender afastou-se quase completamente.

- Zé, o que ele quis dizer com: os sinos dobram por ti?

Isto é muito mais do que o sentimento de meu avô Chico ao saber que os sinos estavam badalando por ‘seu’ Luiz, o dono de um bar e pai de um de seus genros. O mesmo ‘seu’ Luiz que nas festas de São João no sítio dele, dos Oliveiras, chegava quando ia dando meia noite e as brasas da fogueira já haviam sido espalhadas, e caminhava descalço misticamente sobre elas. Sim, o pescador Chico sentiu uma grande perda com a morte de ‘seu’ Luiz.

Mas o que John Donne queria nos fazer perceber com o coração é que a morte de um motoqueiro que nunca se conheceu, sob as rodas de um automóvel, rouba um pedaço de nós. Se a morte de um ente querido nosso representa agora só um sofrimento intenso, mas muito passageiro - como dizem: nem o corpo esfriou e já estamos em outra - que não dá para meditar, ‘curtir’ a perda, a falta e a dor; quanto mais distante estamos do ensinamento de John Donne: foi um pouco de você que morreu, então pare para se condoer do desencarne de um desconhecido!

(em Rio Claro, RJ, aconchegada ao pé da serra da Carioca, quando os sinos dobram ainda se perguntam: quem morreu?)

É irreversível, mesmo? Estamos virando autômatos insensíveis que só pensamos em nós mesmos?



publicado por joseadal às 13:01
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