Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

O que vou dizer parece uma heresia: os cristãos não são discípulos de Cristo.

Quer uma prova? Pegue uma instrução de Jesus (Mateus 5:39): “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. No trânsito, quando alguém grita: Sai da frente imbecíl!, e respondemos: É a mãe!, não estamos dando a outra face.

Lendo o filósofo Artur Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e Representação, percebi a distância que nos separa do pensamento do Messias: “Quando, com efeito, o princípio de individuação foi penetrado o suficiente para que o homem não mais estabeleça essa distinção egoísta entre si e o resto do mundo, quando o homem toma parte nas dores alheias como nas próprias, fica disposto ao sacrifício de si mesmo se puder salvar assim a outros indivíduos”. Em suma, Jesus nos ensinou a diminuir nossa individualidade.

Para se entender os ensinamentos do mestre é preciso uma evolução muito grande. Schopenhauer, diz: “Miséria alguma lhe será desde então indiferente. Todos os tormentos que vê e que só de raro pode aliviar, aqueles de que não tem conhecimento senão indireto, todos o comove, agitam-no como se fossem seus”. Esse é o cristão. Eu e você somos mais ou menos isso que ele escreve a seguir: “A nós, maioria dos mortais, às vezes, alguma desgraça pessoal sentida profundamente, ou alguma dor alheia vista em toda a sua plenitude, desvendam-nos todo o nada e toda a amargura da existência”. E então, nos condoemos das outras pessoas.

Os santos e beatos, os humanos evoluídos, “compreendem, então, o mundo e a natureza inteira. Vê tudo quanto existe condenado a contínuo aniquilamento, a vãs esperanças e à dor sem trégua. Em qualquer parte para onde volva o olhar vê o homem sofrer, vê o animal sofrer, vê um mundo que se desvanece. E tudo isto o toca tão profundamente quanto as desventuras pessoais tocam o egoísta. Como poderia, pois, um homem assim, depois de ter conhecido claramente de que natureza é o mundo, persistir em manifestações incessantes de violência cada vez maior?”

No trânsito não é fácil, mas um cristão talvez consiga depois de xingado levantar a mão para o motorista endoidecido e com pena dele, dizer: vai em paz, meu irmão!



publicado por joseadal às 23:19
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