Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Mais um canteiro de obras surge na avenida principal da cidade. Um terreno precioso, com um metro quadrado bem caro, tem lá ao fundo uma imponente mangueira, frondosa, carregadinha de manga espada. Por uma abertura no portão se vê a árvore antiga, talvez plantada quando os primeiros moradores vieram morar na récem criada vila residencial. Testemunhou tanta coisa e interferiu na vida de tantas pessoas!

Continuei andando com Malu imaginando se o proprietário fez de tudo para cortá-la ou se pediu ao arquiteto para aproveitar ao máximo a presença da árvore quase centenária. Contam que na Nova Iorque da década de 1920 o rico Rockfeller comprou um terreno para construir vários arranha-céus, mas diferente das construções da época que ocupavam o terreno ao máximo ele decidiu deixar uma área ao ar livre com árvores e uma praça para patinação no gelo. O respeito à vida, a valorização dos espaços abertos e o domínio do tempo é um modo de existir em paz.

Lendo uma crônica de Arnaldo Bloch homenageando Rubem Braga vejo-o se referir a nossa existência galopante de um modo diferente: "Não à toa, na velocidade da vida moderna, todos estão fixando-se em aspectos sutis do dia a dia, sintoma de uma angústia cotidiana. Creio que em grande parte por causa de um utilitarismo cientificista (tudo deve ser explicado e não sonhado) só nos resta dizer, ai de nós, e seguirmos como romeiros aflitos rumo à tumba". Rubem Braga escrevia todos os dias e milhares de leitores se deliciavam com a capacidade dele de fazer o tempo diminuir seu passar. Leia este pedacinho de A Viajante, uma borboleta amarela que passou por ele numa rua do Rio e que saiu seguindo-a: "Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo".

Acompanhar Malu me dá a oportunidade de diminuir meu ritmo todos os dias, e lá fomos os dois. Dei uma olhada para trás e pensei no prazer de entrar na galeria que deve surgir ali e me sentar num banco sob a velha mangueira.



publicado por joseadal às 23:47
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