Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

O caminho desdobrava-se em uma curva onde uma árvore bem antiga assistia ao ir e vir do ser humano há mais de um século, numa extensão plana onde as chuvas formaram um areal traiçoeiro que fazia rabear a bike, nas descidas semeadas de pedras quebradas de imemoriais granitos e em subidas demoradas e estafantes com uma abertura onde um céu esbranquiçado pelo nevoeiro aparecia, lá adiante. Aproximávamos de Pentagna, e foi aí que o colega Otacílio falou de sua filha de cinco anos pedindo um celular: “como minhas coleguinhas já têm”.

Estou lendo Virtualização dos Saberes, de Renato N Bittencourt, onde o jovem doutor em Filosofia fala da geração do século 21: “O virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos, é uma espécie de extensão desse mundo concreto por meio de instâncias imateriais”. Então cita o filósofo Pierre Levy: “O virtual não substitui o real, ele multiplica as oportunidades para desenvolvê-lo. A multiplicação de máquinas informacionais afetará a circulação do conhecimento, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação dos homens o fez. Os recursos interativos antes do advento da internet seguiram o padrão um-um (o telefone), depois o um-muitos (o rádio, o cinema e a TV) e agora serão caracterizados pelo padrão todos-todos”. Este é o especialista em Cibercultura. 

É assustador para um jovem pai ver a filhinha de cinco anos querer sair do círculo bem escolhido de quem lhe transmite informações para um incontrolável turbilhão de ideias e pensamentos. O professor Bittencourt diz que os novos pais terão de conviver com isto, porém sem abrir mão do cuidado com a formação da tenra criatura que será continuação dele mesmo. “A disposição informativa todos-todos promove a mútua informação entre aqueles que se encontram conectados. A mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa. Cada um poderá fazer parte desse processo de construção coletiva de conhecimentos a ser compartilhado publicamente. A expansão da internet abre a possibilidade de haver uma maior comunhão dos conhecimentos elaborados a um nível jamais imaginado pelas estruturas epistemológicas”.

Aí reside o problema do meu colega: a filha de cinco anos já pretender se comunicar (ouvir) o mundo todo. “A palavra epistemologia designa o estudo da origem, dos métodos e da validade do conhecimento que chega até nós. A sua problemática compreende a questão de se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, de quais são os limites do conhecimento e da origem do conhecimento. Haverá conhecimento certo e seguro em alguma concepção a priori?” – definição da Wikipédia.

O meu amigo Canela e todos os pais do século 21 terão de conviver com isso: cada vez mais cedo o filho quererá bater asas e voar.

- Mas será que ela já está pronta, Zé?!   



publicado por joseadal às 12:34
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