Quinta-feira, 19 de Julho de 2012

Voltava da escola, tinha 10 anos, quando vi um movimento no
final de minha rua e corri pra lá. Cheguei no exato momento em que uma linda
moça correndo pelo quintal da casa foi segura pelo irmão e arrastada para
dentro de casa. A cerca viva deixava a vizinhança ver aquela situação íntima e
privada. O que foi, perguntei. Uma vizinha explicou: Ela tomou formicida e
sofrendo muito corria sem ninguém conseguir pegá-la. O suicídio sempre foi para
mim um mistério que buscava entender. (trombetas amarelas)

“Por consequência, a causa das nossas dores ou das nossas
alegrias, não reside, de ordinário, na realidade presente, mas em pensamentos
abstratos; e são estes que se nos tornam frequentemente molestos até ao ponto
de nos criar tormentos a cujo confronto todas as dores dos animais são
insignificantes”.

Por causa de nossa razão, este maravilhoso mecanismo que foi
adicionado a raça dos homo, a dor física é, muitas vezes, mais suportável que o
sofrimento moral. Aquela bela moça da minha infância havia sido desprezada pelo
noivo e isto foi para ela tão insuportável que buscou a morte.

O filósofo Artur Schopenhauer continua, nos elucidando: “Pois
que tais torturas morais, às vezes, suplantam nossas dores físicas, pois que,
sob o império de sofrimentos intelectuais extremos, procuramos os sofrimentos
físicos com o único fito de distrair a nossa atenção daqueles para estes: razão
pela qual vemos o homem dominado por violenta dor moral arrancar os cabelos,
bater o peito, arranhar o rosto, rolar por terra. São meios violentos para
distrair-se dalgum pensamento tornado insuportável”.

São as dores da alma, a consciência ferida. Alguns
espiritualistas explicam que, como espíritos, temos um código de honra mais
elevado e quando enfrentamos uma situação amoral, praticando-a ou sofrendo de
outrem este dano, a dor nesta nossa porção imaterial é forte demais. Ele continua:

“É igualmente porque os sofrimentos morais, como os mais
fortes, nos tornam insensíveis aos sofrimentos físicos, que o suicídio se torna
quase fácil ao homem desesperado ou a quem se sinta dilacerado por uma tristeza
mórbida mesmo quando no estado anterior de calma física ou moral este
pensamento o tivesse feito recuar. Com razão, portanto, diz Epíteto: Não as coisas
por si mesmas turbam o homem, mas os decretos das coisas. E Sêneca,
acrescenta: Dão-se muitas coisas as quais mais do que nos oprimem, nos
espantam, e mui frequentemente somos angustiados mais pela ideia do que pela realidades”.

No livro Rebecca, que estou relendo, cita um poema sem mencionar o nome, que diz:

“Fugi-lhe, dias, noites, anos em fora

Como a fugir dos próprios pensamentos.

De olhar triste e cansado de quem chora

escondi-me. Por lágrimas, lamentos

e risadas alegres acossado.

Perseguido, atirei-me, desvairado,

nos abismos profundos, insondáveis,

onde o terror e a morte residem.

Ouvindo sempre os sons intoleráveis,

daqueles passos que me perseguem”.


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publicado por joseadal às 11:50
Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

“A objetivação da vontade tem por forma necessária o
presente, ponto indivisível que talha o tempo prolongando-se ao infinito nas
duas direções e que permanece imóvel, tal como um eterno meio-dia que nenhuma
noite apagasse, ou como o Sol real que brilha, continuamente, conquanto nos
pareça que imerge no seio da noite”

Estas palavras, quase poesia, são do livro O Mundo como
Vontade e Representação, de Artur Schopenhauer. Ele quer enfatizar a ideia da
eternidade e nos afastar da pequenez desta vida finita que vivemos e nos
agarramos tanto. Preso a esta existência na matéria podemos perder toda noção
exata do que é a vida.

“Temer a morte como destruição é como se o Sol no crepúsculo
exclamasse, gemendo: Ai de mim que vou perder-me numa noite eterna! Mas,
vice-versa, também o contrário é verdadeiro. Aquele que, oprimido pelo peso da
vida, e embora a amando e afirmando-a lhe teme as dores e, sobretudo, não quer
suportar por mais tempo o triste destino que lhe toca, em vão espera encontrar
a libertação na morte e salvar-se com o suicídio. Mas o porto que lhe oferece o
Orco, escuro e gelado, cuja calma o atrai, não é mais que uma vazia miragem. A
Terra continua girando incessantemente do dia para a noite; o indivíduo morre:
mas o Sol arde sem trégua e o meio-dia é eterno”.

Por muitos modos, se só temos diante de nós esta vida, procuramos
o suicídio. Não, talvez, o ato extremo, mas na bebida, nas drogas, no cigarro,
numa vida sem regras de trabalho ou diversão. Desta maneira mostramos que a
vida nos é pesada.

“A vontade de viver está certa de viver: a forma da vida é
um presente sem fim; e pouco importa que os indivíduos, fenômenos da Ideia,
nasçam e morram como sonhos fugazes. O suicídio, portanto, desde já nos aparece
como um ato inútil e porventura insensato”.

(lá em baixo o caminho que vem de São José do Barreiro e sobe a Bocaina)

Um religioso, equilibrando-se precariamente entre a
existência neste planeta e a verdadeira vida em outra dimensão, diz: Comete
suicídio quem não tem fé! E é isto mesmo. Mas é bom trocar em miúdos a palavra
fé. João Paulo II explicou em Não Tenham Medo que a fé é uma ponte que Deus
cria entre nós e Ele. Ele nos toca (escolhe) – e faz isto com cada criatura sua
– e se O reconhecemos como autor de tudo que existe e colocamos nossa vida em
Suas mãos, está montado o fenômeno da fé, que move montanhas e não nos permite
nos matarmos, no suicídio ou numa vida insensata.


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publicado por joseadal às 11:27
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