Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Todo ano participo do concurso de arte de um banco, o Talento da Maturidade. Ainda não fui premiado, mas participo sem esmorecer. Ano passado tentei escrever sobre um casal que passa pela dor da viuvez. No bairro onde moro, a Vila Santa Cecília, tem muitos idosos e tenho vários vizinhos que passaram por isso. Quando os encontrava levantava lembranças e eles contavam o que sentiram e pelo que ainda passavam. As mulheres, na maioria, falavam do alívio por terminarem lutas cansativas contra doenças prolongadas dos cônjuges. Os homens dividiam-se. Um quando nos encontrávamos eu cumprimentava: Como vai Mauro? Ah, seu Zé, está difícil. A maior parte fechou aquela porta e continuou a vida. Quase tipo: antes ela do que eu.

Terminei o livro O Morro dos Ventos Uivantes e li um caso raro atualmente: a dor que não passa.

 “- Que é que não provoca a lembrança dela? Não posso lançar o olhar para esse chão sem que veja nele suas feições desenhadas! Em cada nuvem e árvore, por passageiros instantes, em cada objeto vivo, me vejo cercado pela sua imagem! Nos rostos mais comuns de homens ou mulheres, no meu próprio, vejo semelhanças com o dela. O mundo inteiro me recorda que ela viveu e que eu a perdi. Esse amor inesquecível vence meus furiosos esforços para conservar minha sanidade, mas só vejo aumentar em mim a degradação e a angústia.

- Não tem medo da morte?

- Não. Por que haveria eu de experimentar tal sentimento com minha constituição forte e meu gênero de vida sóbrio? Provavelmente ficarei sobre esta terra por muito tempo. Contudo não posso continuar a viver dessa forma”.

Bem, esse livro foi escrito por volta de 1840, uma época em que as pessoas não estavam sendo empurradas por uma multidão de gente e do que fazer e logo esquecem o ente querido.

 

Entre tantos só o Alípio me contou que a lembrança de Terezinha era tão forte que nas noites solitárias ela vinha conversar com ele. Mas o velho amigo não durou muito e acompanhou sua querida companheira em uns poucos meses.


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publicado por joseadal às 22:52

Declaram os espíritos, seres em outro plano, que a enorme perda que nos está afetando é a incapacidade de pensar por si mesmo. Estou lendo um ensaio da historiadora e filósofa Hannah Arendt (em espanhol) em que ela fala deste prejuizo para o ser:

"El primero que ha hablado del pensamiento como pathos, como algo que afecta a alguien ha sido Platón, que llama asombro al principio de la Filosofía".

 

O pensar "afeta", tem a capacidade de mudar o caminho por onde estamos indo e de nos levar a um nível mais elevado. O gatilho que dispara ou nos faz pensar é o "assombro".

"Heidegger habla una vez, en el mismo sentido que Platón, de la ‘capacidad de asombrarse ante lo sencillo’, pero añade algo diferente de lo que dice Platón, ‘y tomar este asombro como posición’”.

Para extranhar algo precisa-se estar atento ao que se passa em nossa volta. Temos de estar com nosso capacidade de crítica ligada. Não podemos engolir tudo ‘numa boa’. Quando algo ‘fere dentro de nós uma corda aguda’, destoa do que aprendemos de ética dos antigos, extranhamos e isso nos faz pensar. Refletimos, paramos com a correría e meditamos. Aí, o pensar nos faz tomar uma posição, um nível sempre mais elevado. Anna diz assim:

“Pues, quizá muchos hombres conocen el pensamiento y el carácter solitario que va unido a éste, pero, sin duda, no tienen en él su posición, y cuando les afecta el asombro ante lo sencillo, cuando, cediendo a este asombro, se aventuran en el pensamiento, saben que están desarraigados de su situación propia en el fluir de las ocupaciones y quehaceres en que se llevan a cabo los asuntos humanos, y que después de un corto tiempos son devueltos a dicha situación”.

Temo pelos jovens. Os adultos que agora só sabem dizer “não tenho tempo” para si, para cuidar de sua evolução espiritual e ficam estagnados na mesma posição, não ensinam ética nem principios firmes aos seus filhos. Então, “esses moços, pobres moços”, na expressão do poeta, não tem a capacidade de se asombrar com o que veem e ouvem, então como pararão para pensar? Como poderão mudar para uma posição mais alta.

Mude sua vida, meu irmão. Nem eu nem você precisa ser uma pessoa sem tempo.



publicado por joseadal às 00:21
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