Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013

Ler Mil Platôs não é fácil. Parece andar numa mata fechada tendo vislumbres rápidos da fera que ronda por ali: um pedaço do pelo amarelo e preto entre a folhagem ou um farfalhar de folhas pisadas. Por longos trechos se lê sem encontrar um sentido ou uma conexão com o que já se conhece. Então, quando cansados de palmilhar as páginas sente-se vontade de parar, em fim a fera se mostra claramente. Afinal, encontramos algo que nos acrescenta.

Aqui os filósofos, autores desse livro, explicam conceitos de problemas da mente. “No entanto, Freud, iria logo escrever algumas páginas extraordinárias no artigo de 1915 sobre O inconsciente, expondo a diferença entre neurose e psicose. Freud diz que um histérico ou um obsessivo, os neuróticos, são pessoas capazes de comparar uma meia a uma vagina, uma cicatriz à castração. Mas apreender eroticamente a pele e sua multiplicidade de poros e de pequenas cicatrizes a um monte de vaginas, e coisa que só um psicótico é capaz. Há nisto uma descoberta clínica muito importante, que faz toda diferença de estilo entre a neurose e a psicose. Por exemplo, quando Salvador Dali se esforça para reproduzir delírios em suas pinturas, ele pode falar longamente sobre o chifre de rinoceronte, mas não abandona nunca um discurso neuropata. No entanto, quando se põe a comparar eriçamento da pele num arrepio a um campo de minúsculos chifres de rinoceronte, sente-se bem que a atmosfera muda e que se entra na loucura”. (O rinoceronte e seu chifre é um tema que Dali usa repetidamente em suas pinturas)

Esse é um trecho que se compreende com facilidade, mas quando ele fala de multiplicidade de significâncias numa mesma palavra a coisa complica. “O procedimento de redução é muito interessante no artigo de 1915, de Freud: ele diz que o neurótico guia suas comparações ou identificações com base em representações de coisas”. Imagens são o que provocam erotização nessas pessoas quase normais. "Enquanto que o psicótico constrói a representação com palavras (por exemplo, a palavra buraco e os orifícios do corpo). Assim, mesmo não existindo unidade nessas coisas, pode existir unidade e identidade entre essas palavras. Pode-se observar que tais palavras são tomadas aqui num uso extensivo, que asseguram a unificação de um conjunto que elas subsumem. O que é compreendido, tanto do lado das palavras quanto das coisas, é a relação do nome próprio produzindo intensidade numa multiplicidade que o neurótico apreende instantaneamente. Para Freud, quando a coisa explode e perde sua identidade, ainda a palavra aí está para reconduzi-la à identidade. Freud contava com a palavra para restabelecer uma unidade que já não estava nas coisas que o neurótico vê”.

Onde esses filósofos querem nos levar? Afinal não escreveram um livro para discutir Freud. Não, eles estão tentando discutir e entender o homem moderno e nosso comportamento que está ficando psicótico. Há modos de se fugir da psicose e até da neurose, como o contato com a natureza.

(na foto um prado no alto da serra da Mantiqueira)



publicado por joseadal às 00:18
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